Intro

Bem vindo ao blog Cuiqueiros, um espaço exclusivamente dedicado à cuica – instrumento musical pertencente à família dos tambores de fricção – e aos seus instrumentistas, os cuiqueiros. Sua criação e manutenção são fruto da curiosidade pessoal do músico e pesquisador Paulinho Bicolor a respeito do universo “cuiquístico” em seus mais variados aspectos. A proposta é debater sobre temas de contexto histórico, técnico e musical, e também sobre as peculiaridades deste instrumento tão característico da música brasileira e do samba, em especial. Basicamente através de textos, vídeos e músicas, pretende-se contribuir para que a cuica seja cada vez mais conhecida e admirada em todo o mundo, revelando sua graça, magia, beleza e mistério.

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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Disco 2 - A incrível bateria do Mestre Marçal

A incrível bateria do Mestre Marçal é um disco lançado em 1987 pela gravadora Polydor. Conforme seu título anuncia, traz o registro de uma bateria constituída por excelentes ritmistas regidos pelo Mestre Marçal. A faixa de abertura, que ocupa todo o lado A do vinil, é integralmente instrumental e, durante os seus oito minutos iniciais, podemos escutar a cuica do próprio Mestre Marçal com aquele toque elegante que lhe característico. Depois disso, o andamento acelera e há o revezamento de interessantíssimos solos de alguns naipes da bateria, dentre eles o naipe de cuica, que se faz ouvir por volta dos doze minutos e meio da gravação. 



Além desse raro registro em áudio de uma ala de cuica tocando à cappella, a capa do álbum apresenta fotografias dos instrumentos que compõem a bateria, onde se vê a imagem dessas belas cuicas reproduzida abaixo. Apesar de estar sem foco, é possível identificar o Carlinhos da Cuica no fundo da fileira de cuiqueiros. Aliás, acredito que seja do Carlinhos o solo de cuica que se destaca no trecho do naipe de cuica mencionado acima.


E há também, na contracapa do álbum, textos explicativos sobre cada instrumento da bateria em português e em inglês. Consta a informação de que esses textos foram escritos por Regina Werneck, baseados em uma entrevista com Mestre Marçal. Sobre a cuica é dito o seguinte:

CUICA  Instrumento feito de uma barrica de madeira (antigamente; hoje, uma raridade) ou metal, com pele de couro em um dos lados e uma vareta de bambu por dentro, que sai do centro da pele e que é esfregada com uma pano úmido ou mesmo com a mão molhada, para produzir um som bastante exótico, que varia de timbre e complementa o colorido da bateria. Ela não tem uma função de marcação, mas se apresenta como solista, é um instrumento de grande criatividade. A cuica atrai a curiosidade de músicos e turistas estrangeiros por sua originalidade de som, único e divertido.

Acho bem possível que a parte inicial desse texto tenha de fato sido transmitida à referida autora pelo Mestre Marçal. Existem vários registros em que ele revela ter sido presenteado pelo pai com uma cuica de barrica aos sete anos de idade. Foi com essa mesma cuica, inclusive, que Marçal fez inúmeros trabalhos durante toda a vida, dentre eles a participação no primeiro disco do Cartola, em 1974.

Por outro lado, informações neste texto como, por exemplo, a afirmação de que a cuica pode ser tocada diretamente "com a mão molhada", parecem consistir em dados que a autora lamentavelmente repetiu de algum dos muitos textos que há por aí com informações equivocadas, como esta, frequentemente registrada no verbete "cuica" dos dicionários, mesmo aqueles publicados por editoras e autores de grande reputação. Registros históricos demonstram que o pano úmido sempre foi um elemento imprescindível para a execução da cuica, haja vista a composição Molha o Pano, de 1936, ano em que Mestre Marçal completava seis anos de idade. Ou seja, o pano (que ainda hoje utilizamos para tocar nosso instrumento) se mostra presente na realidade da cuica mesmo antes de Marçal ganhar a sua primeira chorona, e por isso duvido que seja dele a afirmação sobre a cuica ser tocada diretamente "com a mão molhada".

Independente de qualquer falha, o texto de Regina Werneck é certamente um esforço importante no sentido de tonar a cuica mais conhecida e traz ainda outras questões dignas de reflexão, por exemplo, ao dizer que a cuica "não tem uma função de marcação, mas se apresenta como solista". Como se sabe, o termo "marcação" é comumente utilizados por boa parte de nós para designar o toque de cuica que fazemos no acompanhamento do samba-enredo. Mas se pensarmos no papel de marcação exercido pelo surdo, atribuir esta função à cuica se torna algo questionável. Afinal, a cuica exerce um papel de marcação e sustentação do andamento rítmico ou seria um instrumento solista, ou de efeito, com a delicada função de complementar o "colorido da bateria"? Espero que vocês, estimados colegas e seguidores desse blog, se sintam estimulados e à vontade para escrever comentários em resposta a esta pergunta.

Por fim, A incrível bateria do Mestre Marçal pode ser apreciado na íntegra clicando AQUI. Além da faixa inicial reproduzida no player acima, Mestre Marçal demonstra no restante do disco outra de suas grandes habilidades, a de cantor, eternizando magistralmente alguns belíssimos sambas-enredo em sua voz.
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sábado, 26 de novembro de 2016

Livro: Na bateria da escola de samba


CAPA - Na bateria da escola de samba

Natal chegando, aqui vai a dica de um ótimo presente para uma criança ou adolescente que se interesse por samba. Publicado em 2014 pela editora Gryphos, "Na bateria da escola de samba" é um livro do pianista, compositor e arranjador Leandro Braga, contando com a colaboração de Mangueirinha como consultor técnico e lindas ilustrações de Axel Sande. Trata-se de uma obra com informações sucintas, mas muito instrutivas, por exemplo, sobre "como é formada a bateria, quais os instrumentos a compõem, quantos são os músicos, como é organizada, como são os ensaios. E ainda traz um CD que reproduz o som de todos os instrumentos". Com relação à cuica, o livro apresenta o texto reproduzido a seguir, bem como o áudio de duas gravações ilustrativas acessíveis no player logo abaixo:

A cuica é um instrumento muito peculiar. Seu corpo é de metal e tem uma pele de couro em um dos lados. Em seu centro é amarrada a ponta de uma vareta de bambu, formando uma espécie de umbigo. A mão direita fica dentro do instrumento, friccionando a vareta com um pano úmido. Os dedos da mão esquerda fazem uma pressão maior ou menor sobre o couro da cuica, pelo lado de fora. Quando apertam a pele, o som fica mais agudo. Quando soltam, o som fica mais grave. É um dos instrumentos preferidos pelos ritmistas de idade mais avançada, pois exige menos esforço físico mas, ainda assim, bastante habilidade. Normalmente uma bateria traz de 20 a 25 cuicas.


O site Estante Virtual disponibiliza alguns exemplares deste livro para compra. Apesar de se direcionar ao público infanto-juvenil, é uma leitura que cai bem para todas as idades. Vale a pena conferir!
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sábado, 1 de outubro de 2016

Vídeo 19 - Cuica Feat (Fabiano Salek)

Entre os diversos bons cuiqueiros espalhados mundo afora, se há um nome que não pode passar despercebido é este: Fabiano Salek. Nesse vídeo temos uma prova do seu talento, que na verdade vai bem além da cuica. Salek é integrante do grupo Sururu na Roda, onde não só toca como também canta, e desenvolve um belo trabalho de ensino musical na escola Maracatu Brasil à frente da Oficina Roda de Samba. Não à toa, foi ele quem gravou os exercícios de cuica registrados no método de percussão Batuque é um privilégio, de Oscar Bolão. Mas com a licença de seus múltiplos talentos, cabe enfatizar aqui a sutileza com que executa sua cuica, fazendo lembrar o estilo do grande mestre Ovídio Brito. Fica agora a oportunidade de apreciar e procurarmos apreender algo da técnica e criatividade desse músico completo e cuiqueiro da melhor qualidade!


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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Disco 1 - O baile do gato

O amigo Marcello Portelense compartilhou recentemente no Facebook uma interessante matéria intitulada "As vidas de um gato sambista" baseada na imagem desse gato tocando cuica, criada pelo cartunista Ziraldo, e impressa em um adesivo promocional do carnaval carioca de 1968. O autor da matéria, Alexandre Medeiros, conta que o felino já havia figurado como símbolo do carnaval de 1967 em outro desenho, onde aparece tocando tamborim, e descreve como surgiu esse gato folião: 



Nos anos 60, era a Secretaria de Turismo da Cidade do Rio de Janeiro que ficava a frente dos preparativos para o carnaval, incluindo a decoração das ruas, a organização do desfile das agremiações carnavalescas, a criação e distribuição de material promocional e outras providências para o acontecimento da festa. Para 1967, a Secretaria resolveu escolher um gato como símbolo daquele carnaval. A justificativa dada pelo Secretário Carlos Laet pela escolha não poderia parecer mais inusitada: “É ele o maior sacrificado da folia, pois de sua pele fazem-se as cuicas e os tamborins que também marcam o ritmo contagiante das escolas de samba e dos denominados blocos que desfilam nas ruas cariocas no tríduo da folia”. Para dar vida a este infausto felino foi convidado o já famoso cartunista Ziraldo, que mesmo achando a justificativa oficial “um tanto trágica”, cria uma figura alegre, elegante e carnavalizada, registrando sutilmente no jogo de cores a nefasta sina do animal que toca um instrumento feito do seu próprio couro.

Achei muito bacana essa observação sobre as cores em tons avermelhados escolhidas pelo Ziraldo para representar "o maior sacrificado da folia", como disse o então Secretário de Turismo. Essa história de que a pele de gato costumava ser utilizada na cuica já foi abordada aqui na postagem Couro de gato, vale conferir! Mas a real motivação desse novo post é inaugurar uma série de publicações onde apresentarei discos que trazem alguma representação da cuica na capa ou algum registro fonográfico significativo do instrumento.

CAPA - O baile do gato
O gato cuiqueiro aparece na capa e contracapa desse disco intitulado O baile do gato, sobre o qual encontrei a seguinte descrição no blog Toque Musical: Patrocinado e promovido pela Secretaria de Turismo do antigo Estado da Guanabara, o álbum foi uma maneira de fixar ao cardápio festivo da cidade um novo baile de salão, realizado no Clube Sírio Libanês, que naquele ano (que eu não sei qual) se fazia pela segunda vez. (...) A gravação me parece ter sido feito ao vivo, talvez extraída do baile anterior.

CONTRACAPA - O baile do gato
O baile do gato pode ser apreciado clicando AQUI. Mas vou logo adiantando que apesar da capa apresentar o "bichano da cuica" desenhado pelo Ziraldo e seu título fazer menção direta ao animal, o que há de mais curioso nesse disco é o fato de não conter uma só faixa em que se possa escutar o som de uma cuica. De qualquer forma, a capa faz por onde!
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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Música 16 - Lá vem cuica

Essa música traz uma incrível gravação de cuica, ou melhor, de várias cuicas, feita por um dos nossos maiores ícones, o mestre Osvaldinho da Cuica. De forma magistral, logo na introdução da música, Osvaldinho gravou vários tracks com a cuica em diferentes afinações, mas executando a mesma frase rítmica, gerando o efeito de abertura de vozes. Isso é muito comum nos naipes de instrumentos de sopro, mas com a cuica é algo extremamente difícil de executar. Só mesmo um cuiqueiro com a habilidade do Osvaldinho para conseguir essa façanha! E a cada refrão as cuicas reaparecem, ainda em diferentes afinações, mas variando o fraseado. Vale a pena escutar com um fone de ouvido para curtir o panorama gerado pela mixagem.


Já fazem pelo menos três anos que penso em postar essa música aqui no blog. Na época em que a conheci, liguei para o Osvaldinho e anotei algumas de suas falas durante a nossa conversa. Mas depois perdi o papel com as anotações e preferi não fazer a postagem sem os interessantes comentários do nosso mestre. Finalmente, o papel reapareceu e a postagem pôde enfim acontecer!

Uma das coisas que conversamos sobre a participação dele nesse trabalho foi um fato curioso que chamou minha atenção ao ler a ficha técnica do disco. A propósito, esse disco, Correio da estação do Brás, do Tom Zé, é absolutamente sensacional!!! Na ficha técnica consta a referência de que a cuíca foi gravada por Oswaldo José Sbarro, sendo que o nome de batismo do Osvaldinho é apenas Osvaldo Barro. Ele me explicou que esse outro Oswaldo é um violinista, já bem mais velho do que ele naquela época, dizendo também que essa semelhança dos nomes causava de fato muita confusão:


– Como ele era velhinho, ele se equivocava e assinava o recibo de cachê que era pra mim. Mas as vezes acontecia o contrário também. Eu tinha que ir lá em Pinheiros, na casa dele, acertar o cachê que pagavam errado pra gente.

Perguntei se ele se lembrava da ocasião em que fez essa gravação e de como conseguiu realizar esse maravilhoso registro:


– Eu não lembro... foi a época que eu mais gravei na minha carreira. Era dia e noite, quatro seções de gravação por dia. Mas era tudo de ouvido. Cuicas afinadas de acordo com a tonalidade, fazendo naipe. Uma cuica de oito vai ter um som penetrante, firme, mais vibrante. E as de nove e meio e dez polegadas têm mais variedade de notas.


Osvaldinho também comentou sobre o seu estilo, expondo sua concepção em relação às diferentes possibilidades de aplicação da cuica em um arranjo musical:


– Virou uma pandemia o uso da cuica com apenas duas notas! É tocar pra frente e pra traz, grave e agudo, e ponto final. Tem que explorar o som do instrumento! Já fui criticado por tocar a cuica parecendo um trombone, mas é que em toda gravação eu procuro adequar na música, eu toco para vestir a música, aplicando com economia.


E o mestre falou também sobre a época em que foi membro do grupo Demônios da Garôa, destacando a participação do grupo na 1ª Bienal do Samba, em 1968, quando defenderam a interessantíssima composição "Mulher, patrão e cachaça", de Adoniran Barbosa.


– O pessoal olhava meio torto pra cuica, instrumento que faz muito "barulho". Depois de 1968 eu consegui dar um destaque pra ela. O Demônios da Garoa estourou na televisão, e eu lá, na frente, com a cuica...
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domingo, 20 de março de 2016

A cuica do Laurindo

Nessa próxima quinta feira, dia 24, o musical A cuica do Laurindo entrará em cartaz no teatro do Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Trata-se de uma peça inspirada no  famoso cuiqueiro Laurindo, personagem criado pelo compositor Noel Rosa em seu samba Triste Cuica. Idealizada por Rodrigo Alzuguir, a peça se constrói sobre as façanhas de Laurindo retratadas em canções de outros compositores que adotaram o personagem de Noel, e em uma série de outras composições que retratam o universo do samba e da vida carioca na década de 1940. Será sem dúvida uma oportunidade incrível de vivenciarmos a "realidade" dos nossos precursores, aqueles cuiqueiros que construíram no passado as bases que hoje nos permitem tocar nosso estimado instrumento musical. Viva o Laurindo, sua cuica, e o teatro brasileiro!!!

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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Oficina de Cuica com Ernani Cal (Monobloco)

Para que vive no Rio de Janeiro, ou tem condições de se deslocar semanalmente para esta cidade, recomendo que não deixe de se inscrever na oficina de cuica oferecida pelo amigo Ernani Cal, diretor do naipe de cuica do Monobloco, onde há anos realiza um trabalho excepcional de ensino do nosso querido instrumento musical. Seguem abaixo mais informações. Sucesso, maestro!


Oficina de Cuica
Prof. Ernani Cal (Monobloco)

Aula conjunta para iniciantes e avançados.

  • Técnica do instrumento
  • Linguagem rítmica
  • Desenvolvimento da musicalidade
  • Aplicação em repertório

Para iniciados que integram o naipe do Monobloco funciona como pré-temporada.

Para iniciados que não integram o naipe serve para ampliar horizontes conhecendo uma técnica específica e novas células rítmicas para aplicação em diversos ritmos da MPB.

Para não iniciados trabalhamos a aproximação ao instrumento e à linguagem da batucada.

Início: Dia 1° de março
Terças de março e abril
Das 20h às 22h

Rua Visconde de Pirajá
nº. 303 - salas 315/316
Ipanema

Informações e reservas:
(21) 2287-5136
Serginho ou Inês
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Pesquisa "CUICAS EM DESFILE"


O amigo Marcello Portelense está conduzindo uma interessante pesquisa denominada “CUICAS EM DESFILE”, sobre a qual o próprio Marcello nos informa o seguinte:

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