Intro

Bem vindo ao blog Cuiqueiros, um espaço exclusivamente dedicado à cuica – instrumento musical pertencente à família dos tambores de fricção – e aos seus instrumentistas, os cuiqueiros. Sua criação e manutenção são fruto da curiosidade pessoal do músico e pesquisador Paulinho Bicolor a respeito do universo “cuiquístico” em seus mais variados aspectos. A proposta é debater sobre temas de contexto histórico, técnico e musical, e também sobre as peculiaridades deste instrumento tão característico da música brasileira e do samba, em especial. Basicamente através de textos, vídeos e músicas, pretende-se contribuir para que a cuica seja cada vez mais conhecida e admirada em todo o mundo, revelando sua graça, magia, beleza e mistério.

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domingo, 10 de setembro de 2017

Disco 3 - Samba, Suor e Ouriço [vol.1]

*Texto do amigo Marcello Portelense especialmente elaborado para este humilde espaço cuiquístico. Obrigado Marcello!

Lançado pela “Soma” - subgravadora da “Som Livre” - em 1976, este LP é o primeiro de uma série comercializada até a década de 90, inclusive em K7. “Samba, Suor e Ouriço” traz faixas com sambas populares e era muito vendido no final de ano, da véspera do Natal até o carnaval.

CAPA - Samba, Suor e Ouriço
Este LP estampa na capa um cuiqueiro muito conhecido, que dispensa apresentações: Índio da Cuica. Acreditamos que ele guarde boas recordações dessa obra, onde estão gravados sambas de Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Wilson Moreira, Silas de Oliveira, dentre outros, interpretados por diversas vozes. Além de “cuicando”, Índio também aparece “pandeirando” e “agogozando”.

CONTRACAPA - Samba, Suor e Ouriço
Ouvindo agora, 41 anos depois, as faixas nos remetem a uma época politicamente tenebrosa, mas culturalmente rica. A resistência e a luta pela liberdade aflorou criatividades sem par naquele período. Vários sambistas tiveram de usar a malandragem das letras e dos ritmos para driblar a censura e lançar suas obras.

Até onde sabemos, este foi o único LP da série “Samba, Suor e Ouriço” que trouxe um cuiqueiro na capa. Quer ouvir? Clique AQUI.
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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Minha cuí@ [Luis Turiba]

Poema de Luis Turiba, o cuiqueiro poeta, publicado em seu livro Qtais (Ed. 7Letras, 2013).


MINHA CUI@

Cuica cuica cuica
Entre a cuica e a cítara
Cui@ se classifica

Faz o samba salpicar
Supimpa sais tapiocas
Faz o samba sincopar
Cintila sóis de pipocas

Meu violino de bambu
Meu tambor de sutilizas
Libertação minha presa
Meu cristal e meu vodu

Turbina de jatos rítmicos
Sorrisos, roncos e choros
Alvorada quase mística
Vara que invade o couro

Primitiva és complexa
Súplica cuica est
Marcas solas, mil firulas
Com tua boca de gula

Cuiqueiro é presepeiro
Vai à frente mostra os dentes
Cuiqueiro é aprendiz
Da vara da meretriz

Mas cuica também falha
Em plena Sapucaí
Quebra a vara, rompe o couro
Desarma o circo e o sigilo
Por isso, digo em sigilo:

Tenho duas cuicas
Florença e Nikita
Enquanto Florença aflora
Nikita quica

E assim floreiam o mundo
Desafinadas, as cuicas

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segunda-feira, 31 de julho de 2017

Música 18 - Cuica [Rosinha de Valença]

Essa música é uma homenagem da violonista Rosinha de Valença ao nosso mestre Zeca da Cuica, gravada no sétimo disco da compositora, lançado em 1973. É difícil descrever essa gravação, mas a originalidade da composição, o arranjo e a performance de cada músico, são de cair o queixo. Inclusive o trabalho de mixagem, que muitas vezes não prestamos muita atenção, é super bacana. Vale a pena escutar com um bom fone de ouvido para perceber a distribuição em stereo dos instrumentos e, claro, com especial atenção para a cuica do Sr. Zeca. O brilho e a consistência das suas notas agudas são inconfundíveis, e aqui ele ainda explora alguns sons mais inusitados  tirados apertando o pano sobre o gambito com uma leve pressão a mais do que o habitual – logo na introdução, ajudando na dramaticidade que caracteriza a composição.



Um fato curioso é que essa música foi regravada em 1976, no disco Confusão urbana, suburbana e rural, do clarinetista Paulo Moura, mas com outro título: "Tema do Zeca da Cuica". Nesse registro, é precedida por "Bicho papão", de Martinho da Vila, Wagner Tiso e Paulo Moura, mas logo se escutam os acordes do violão pelas mãos da Rosinha e o Sr. Zeca mais uma vez arrepiando na cuica. É muito interessante fazer a comparação entre essas duas gravações. Apesar de ser a mesma composição, são duas interpretações bem diferentes, mas em ambas o Sr. Zeca demonstra porque mereceu ganhar uma música em sua homenagem, partindo de uma artista tão especial como a Rosinha de Valença.
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quarta-feira, 7 de junho de 2017

A cuica do Laurindo [nova temporada]


O premiado musical "A cuica do Laurindo" entrará novamente em cartaz no Rio de Janeiro, no teatro Carlos Gomes, de 16 de junho à 30 de julho (quinta a sábado às 19h / domingo às 17h). Ingressos antecipados AQUI, por módicos R$40 inteira e R$20 meia.

A trama da peça gira em torno do cuiqueiro Laurindo, um personagem fictício criado por Noel Rosa, mas certamente inspirado nas figuras do samba com quem o compositor conviveu. Trata-se de uma comédia musical primorosamente idealizada por Rodrigo Alzuguir e dirigida por Sidnei Cruz. São cerca de quarenta canções contado as peripécias que envolvem os diversos personagens, brilhantemente interpretados por Alexandre Rosa Moreno (Laurindo), Claudia Ventura (Conceição do Zé), Hugo Germano (Tião / Cabaretier / Jota Efegê / Laurindo Filho), Marcos Sacramento (Dodô / Mais Velho / Maestro Strondowski), Nina Wirtti (Guiomar Wendhausen / Cabaretiere) e Vilma Melo (Zizica Tupynambá), além do próprio Rodrigo Alzuguir (Zé da Conceição / Hercule Perrier).

Como muitos seguidores desse humilde espaço cuiquístico não vivem no Rio de Janeiro e dificilmente poderão assistir a peça, compartilho abaixo os registros de algumas cenas, a começar pela interpretação de Triste Cuica, composição em que Laurindo ganhou vida, e também a morte, pois foi nessa música que Noel Rosa criou o personagem, em 1935, embora revelando no fim da canção que Laurindo teria sido misteriosamente assassinado. Vale destacar a bela performance do músico Marcus Thadeu executando a cuíca, acompanhado por Magno Júlio (percussão), Yuri Villar (sopros), Rafael Mallmith (violão 7 cordas) e Luis Barcelos (bandolim e direção musical), que tocam lindamente durante toda a peça. 


Esse segundo registro traz um trecho da música "Como se faz uma cuica", da autoria de Haroldo Lobo e Wilson Baptista, que descreve poeticamente em seus versos as características de uma cuica na década de 1940 (um pedaço de pau / um pedaço de couro / numa barrica / é assim que se faz uma cuica...).


O próximo vídeo traz uma lindíssima interpretação de "Ave Maria do morro", composição de Herivelto Martins, de 1942, que, de modo comovente, narra a devoção dos moradores de uma favela, rezando juntos ao fim do dia por uma vida menos sofrida.


E esse último vídeo registra um dos pontos altos da peça, quando todo o elenco interpreta "Praça Onze", também de Herivelto Martins, em parceria com Grande Otelo, que narra a angústia dos sambistas ao tomarem parte da notícia de que um dos principais redutos do samba no Rio de Janeiro, a Praça 11 de Junho, seria destruída para a abertura de uma nova avenida na cidade.

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sexta-feira, 28 de abril de 2017

Música 17 - Conversa fiada [Banda Mel]

A exemplo dos posts "A cuica no rock and roll" e "A cuica no jazz", a postagem de hoje também aborda a presença da nossa querida "chorona" em contextos da música popular que ela não costuma ser utilizada com tanta frequência. Dessa vez, no contexto do axé-music.

A música Conversa fiada, da autoria de Marinho, integra o repertório do disco Negra, lançado em 1991 pela Continental, o quinto álbum de uma das bandas precursoras do samba-reggae, a Banda Mel. A intérprete é a cantora Márcia Short e o músico responsável pela gravação dessa cuica esperta, infelizmente, não tem o seu nome registrado no encarte do disco. A ficha técnica registra apenas os integrantes da Banda Mel e músicos convidados, executantes de instrumentos de sopro. Mas ficam aqui os registros da poesia dessa canção e dos sons da cuica suingando bonito no balanço do axé.


CONVERSA FIADA
(Marinho)

Vamos cantar, vamos cantar, vamos mostrar
Vamos cantar, vamos cantar, vamos mostrar
Vamos mostrar pra todos o nosso cantar
Pois a corda só quebra pro lado de cá

Não quero mais essa conversa fiada
Não quero mais ouvir essa piada
Que o Brasil é o país do futuro
Isso é balela pra trouxa, o povo anda duro

Hei galera, vamos nessa!
Nessa onda quero arrebentar
Não quero mais ouvir essa conversa
Papo de deixa disso, ou de deixa pra lá

Vamos cantar, vamos cantar, vamos mostrar
Vamos cantar, vamos cantar, vamos mostrar
Vamos mostrar pra todos o nosso cantar
Pois a corda só quebra pro lado de cá

Consciência anda faltando
Em más notícias ando mergulhando
Pois, hoje, chega! Eu quero gritar!
Que o povo que canta não me deixa calar
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quinta-feira, 30 de março de 2017

Da cupópia da cuica: a diáspora dos tambores centro-africanos de fricção e a formação das musicalidades do Atlântico Negro (Sécs. XIX e XX)

A postagem de hoje é bastante especial, pois destaca um trabalho extremamente significativo para a construção de conhecimento sobre a cuica, um instrumento que, embora desperte muita curiosidade, ainda guarda um passado pouco conhecido, além de uma série de outras questões que, creio eu, permanecem mal compreendidas.

Da cupópia da cuica: a diáspora dos tambores centro-africanos de fricção e a formação das musicalidades do Atlântico Negro (Sécs. XIX e XX) consiste na dissertação de mestrado de Rafael Galante, defendida em 2015 no Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade de São Paulo - USP. Até onde sei, esse é o trabalho de maior fôlego já realizado sobre a cuica, claramente desenvolvido com base em densas pesquisas documentais e etnográficas, assim apresentado pelo seu autor:

O objetivo principal desta dissertação é o de recuperar a dimensão atlântica da história social das musicalidades afro-brasileiras criadas por africanos escravizados e seus descendentes durante o último século de escravismo e ao longo das primeiras décadas do período pós-abolição. O foco recai, sobretudo, no entendimento dos movimentos de transposição histórica dos tambores de fricção, de determinadas áreas do continente africano para as Américas, sua importância na formação das comunidades e culturas musicais afro-brasileiras, especialmente naquelas relacionadas ao samba urbano carioca, bem como nas transformações que o processo de diáspora imprimiu na organologia e na performance realizada por meio destes tambores de fricção. Este estudo, como também o inventário realizado dos instrumentos musicais que compunham as paisagens musicais do Brasil e de determinadas sociedades da África Central, sustenta-se sobre fontes históricas variadas, desde representações iconográficas contidas em crônicas, relatos de viagem e etnografias de viajantes e estudiosos que percorreram as diversas sociedades do período, análise de exemplares de instrumentos africanos pertencentes a coleções museológicas, até a escuta e análise de diversos fonogramas disponibilizados por meios eletrônicos.

Em outras palavras, essa pesquisa contribui não só para o aprofundamento do que se conhece sobre a cuíca, mas também sobre a família instrumental dos tambores de fricção de um modo geral, dando passos fundamentais na ampliação do conhecimento sobre a presença destes instrumentos em diferentes regiões do Brasil, bem como sobre a relação desse patrimônio cultural brasileiro com a extensão atlântica da África central. Enfim, o trabalho como um todo é da maior importância e a forma como foi escrito torna a leitura bastante prazerosa. Para quem se interessar, o download gratuito encontra-se disponível AQUI.

Aproveito a oportunidade para parabenizar o Rafael pela sua iniciativa e dedicação e agradecer o verdadeiro presente que ele nos dá, possibilitando que a gente conheça mais sobre a nossa querida chorona.

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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Amado Jorge, a história de uma raça brasileira [Osvaldinho da Cuica, Namur e Macalé do Cavaco]

Essa postagem traz o registro de um samba do nosso ícone Osvaldinho da Cuica interpretado pelo cantor e compositor Leandro Lehart em seu DVD Ensaio de Escola de Samba, onde celebra alguns dos sambas históricos do carnaval paulista. Em vídeo, ele conta que foram inicialmente selecionados cento e cinquenta sambas, da década de 1960 aos anos 2000, dos quais quatorze entraram no repertório final. O trabalho contou com ritmistas de diversas escolas de samba de São Paulo e do Rio de Janeiro, sendo que os dois cuiqueiros, Edmir e Magrão, representam o excelente naipe de cuicas da Império de Casa Verde. O mais bacana desse registro é que eles fazem uma bela homenagem ao Osvaldinho tocando as cuicas a capella no final da gravação.



Amado Jorge, a história de uma raça brasileira, que Osvaldinho compôs em parceiria com Namur e Macalé do Cavaco, garantiu à Vai-Vai o seu sexto campeonato, no carnaval de 1988. 
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quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Vídeo-aula de cuica

Faz tempo que me pedem para postar vídeos com dicas de como tocar cuica, como afinar, com sugestões de exercícios, enfim, com orientações gerais sobre a execução do instrumento. A melhor forma que encontrei para atender essa demanda foi criar uma playlist de vídeos cuja temática seja o ensino do instrumento. Este assunto, aliás, já foi abordado em outras postagens onde apresentei métodos de ensino musical com exercícios para a cuica, por exemplo, nos posts Batuque é um privilégio, sobre o método de Oscar Bolão, Percusión Brasileña, método de Fernando Marcon, e também o post Na bateria da escola de samba, sobre o livro de Leandro Braga.

Com relação a essa playlist, selecionei os vídeos com base na ordem em que apareciam nos resultados de busca, mas tentei manter uma sequência em relação à autoria. Até agora são 34, mas vou acrescentar novos vídeos à medida em que os encontrar. A maioria é em português, mas também há registros em inglês e em espanhol. Alguns apresentam boa qualidade de produção, com a imagem e o áudio bem nítidos, enquanto outros são tecnicamente inferiores, mas não menos importantes. Deve dar bastante trabalho fazer um vídeo desses, mesmo aqueles mais "caseiros", então aproveito a oportunidade para agradecer a generosidade dos nossos colegas e parabenizá-los pela iniciativa em compartilhar seus conhecimentos. 


Essa playlist mistura aulas voltadas para quem está começando no instrumento e também para quem já está em um nível de aprendizado mais avançado. Aliás, como diriam os antigos, a cuica é um instrumento um tanto quanto "melindroso", então nunca devemos pensar que já sabemos o bastante sobre ela. Até porque, uma característica essencial que envolve tudo relacionado a tocar este instrumento é o fato de cada cuiqueiro ter as suas preferências e maneiras pessoais de fazer isso ou aquilo. Observar essas diferenças é sempre enriquecedor e esses vídeos são a prova concreta da variedade desses pontos de vista e, consequentemente, da complexidade envolvida na transmissão desses conhecimentos. A propósito, essa playlist também pode servir para quem é professor de cuica se inspirar em algumas ideias e trabalhar com seus alunos. Desejo a todos uma excelente aula!
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